O nome apareceu quando o inverno começava a dar tréguas. O título do EP nasceu de um quadro assustador, encontrado no lixo à porta de um estúdio em Lisboa. E as músicas parecem ter sido feitas com a convicção de que algumas coisas não devem ficar por dizer.
As Manga Cava apresentam-se como «girly indie pop punk rock tuga do mato», uma definição que pode dar trabalho a quem gosta de arrumar bandas em gavetas, mas que lhes assenta bastante bem.
No EP Retrato da Menina Abandonada no Lixo, há guitarras, ironia, vontade de provocar e uma relação pouco cerimoniosa com as convenções. Falámos com elas sobre liberdade criativa, democracia nos ensaios, botões de autodestruição e a possibilidade de continuar a fazer música mesmo que alguém lhes confisque as guitarras.
1. Comecemos pelo nome. Manga Cava parece tanto uma banda como uma coisa que se devia encontrar escrita numa parede às quatro da manhã. De onde veio e quantas opções ainda piores ficaram pelo caminho?
Manga Cava é, sem dúvida, uma ode à liberdade, cujo conceito sentimos representar bem as nossas intenções enquanto coletivo. Surgiu numa altura em que ainda estava frio, naquela transição para a primavera em que ainda não dá para andar de t-shirt, mas durante a qual já apetece imenso fazê-lo. O inverno não é a nossa praia. Quanto a opções que ficaram pelo caminho, é difícil encontrá-las, já que Manga Cava foi realmente a única que pegou.
2. Apresentam-se como «girly indie pop punk rock tuga do mato». Isto é uma definição musical, uma declaração de intenções ou uma forma de complicar a vida a quem tenta apresentar-vos num festival?
Um pouco das duas primeiras. Sim, é o que consideramos ser o nosso estilo de música, porque não o conseguimos classificar de uma maneira mais sucinta que essa, mas também uma declaração de intenções, na medida em que pretendemos demonstrar que estes conceitos, apesar de aparentemente antitéticos, conseguem coexistir em harmonia. Não há nenhuma palavra que conste desta tentativa de definição que esteja lá porque sim.

3. O vosso EP chama-se Retrato da Menina Abandonada no Lixo. Quem é esta menina, quem a abandonou e porque é que ninguém chamou a polícia?
O nome do EP surgiu no dia em que gravámos vozes. Estávamos em Lisboa, do lado de fora do edifício dos estúdios da Cafetra, quando o Kellzo (que gravou o disco) encontrou a pintura da menina no lixo. Ainda não tínhamos nome para o EP e achámos engraçada a referência, sabendo que mais ninguém além de nós a compreenderia. Não sabemos quem a abandonou, mas, efetivamente, era um quadro não só muito mal pintado como um pouco assustador. Acho que toda a gente ficou feliz por ele ter acabado no lixo, no fim de contas.
4. Em Botão de Autodestruição há logo um título que promete sarilhos. Se existisse realmente um botão desses na sala de ensaios, quem seria a primeira a carregá-lo e quem tentaria impedir a catástrofe?
Se existisse um botão desses, seria definitivamente a Maria Marta a carregar nele, e teria de ser um esforço coletivo das três restantes membros para a impedir. E seria, de facto, difícil fazê-lo.
5. A vossa música tem uma mistura interessante de ingenuidade aparente, ironia e guitarras que não parecem particularmente interessadas em pedir licença. Até que ponto há uma intenção por trás disso ou preferem que as coisas aconteçam sem demasiada vigilância?
A intenção das Manga Cava é, sem dúvida, criar sem pedir licença. É crucial para nós ocupar um espaço com total liberdade artística, sem preconceitos ou regras, e ser também o espaço seguro para outras pessoas. Criamos porque precisamos de fazer barulho cá para fora, quase como atividade de autorregulação.
6. Quando estão a criar uma música, como é que funciona a democracia nas Manga Cava? Votam, discutem, fazem chantagem emocional ou ganha quem estiver a tocar mais alto?
A criação de músicas é um processo bastante coerente e democrático. Funciona sempre bastante organicamente, cada uma responsável pela sua parte da música e sempre abertas às opiniões e insights umas das outras. Estamos todas livres para escrever e recomendar o que nos apetecer.
7. Há bandas que passam anos à procura de um som perfeito. Vocês parecem mais interessadas em que as músicas estejam vivas. O que é que nunca sacrificariam numa canção, mesmo que alguém vos garantisse que assim seria mais fácil chegar a mais pessoas?
Concordamos que não andamos propriamente à procura das músicas perfeitas, sendo quase urgente que elas saiam de nós e sejam tocadas. Nunca sacrificaríamos a nossa maneira muito própria de escrever, nem os temas que abordamos. Achamos que o que tratamos são já emoções muito universais, mas queremos mesmo passar essa mensagem pelas nossas próprias ideias, sem nunca nos conformarmos a uma forma mais «agradável» de escrita.

8. Num concerto, qual é o momento em que percebem que a noite está realmente a acontecer? E já houve alguma situação em palco que vos tenha feito pensar que talvez fosse melhor terem escolhido uma atividade mais tranquila?
Notamos que o concerto está mesmo a acontecer quando o pessoal se começa a juntar mais e começam a aparecer as rodinhas de mosh, ou quando vemos que as pessoas estão a abanar muito o capacete. Gostamos de ter a noção de que a nossa música consegue convocar nas pessoas um espírito de comunidade entre o público. Nestes últimos concertos, quando chega a «Tás a Gozar Comigo?», temos mencionado alguém na plateia, normalmente um amigo, e esse momento é importante para percebermos que estão ali pessoas do outro lado a curtir connosco.
9. Se as Manga Cava fossem proibidas de usar guitarras durante um ano, o que aconteceria? Um disco de música eletrónica, uma banda de percussão experimental ou quatro pessoas profundamente irritadas?
Se fôssemos proibidas de usar guitarras, provavelmente ir-nos-íamos desenrascar com outra coisa qualquer. Talvez a guitarrada virasse só cantar e gritar, talvez o barulho virasse sintetizadores, mas uma coisa é certa: teríamos de compensar a falta das seis cordas com ainda mais atitude.
10. Imaginem que daqui a vinte anos alguém encontra o vosso EP numa caixa de discos esquecida e decide ouvi-lo sem saber absolutamente nada sobre vocês. O que gostavam que essa pessoa descobrisse? E o que preferiam que continuasse sem explicação?
Gostávamos que as pessoas descobrissem que andávamos chateadas com algumas coisas à nossa volta e que este EP nasce numa altura em que é necessário que isso aconteça. Não vale a pena descobrir porque é que escrevemos as músicas, elas vão existir por si só e hão de fazer sentido noutros contextos. O mais importante seria incentivar as pessoas a revoltarem-se, sem que seja numa escala micro.

