É perfeitamente possível subir a um palco, rodear-se de sintetizadores, construir uma atmosfera sombria e aparecer com um Pikachu na cabeça. Não há nenhuma lei que o proíba, embora seja provável que alguém, algures, esteja a preparar uma tese sobre o assunto.
Gabci não parece particularmente preocupada em facilitar o trabalho a quem insiste em arrumar a música em gavetas. Estudou jazz, interessou-se pela eletrónica, passou por festivais como o Extramuralhas e foi desenvolvendo uma linguagem onde o darkwave e o synthpop convivem com ideias que nem sempre pedem licença para entrar. Gosta de imperfeições, de experimentar e de descobrir até onde consegue levar uma música sem a tornar demasiado previsível.
Também há uma diferença entre a Gabci que sobe ao palco e aquela que vai comprar detergente. A primeira tem luzes, música e alguma supervisão. A segunda está entregue a si própria, com consequências ainda por apurar.
Com as músicas do primeiro álbum concluídas e novas ideias para um segundo já em andamento, conversámos sobre a estranheza como ferramenta criativa, as melodias que sobrevivem mal a uma noite de sono, as decisões tomadas em palco e a possibilidade de um Pokémon vir a exigir direitos de autor.
O Pikachu, até ao fecho desta edição, não respondeu às nossas tentativas de contacto.
1. Comecemos pelo mais urgente. O Pikachu sabe que está envolvido neste projeto musical ou ainda não foi informado? E já discutiram direitos de autor?
O Pikachu está a par, sim. Aliás, tem tido uma presença bastante assídua no projeto, embora ainda não saiba muito bem em que se meteu. Tem um papel importante na componente visual de Game On. Quanto aos direitos de autor, estamos a tentar chegar a um acordo justo… Acho que é uma parceria com bastante potencial, desde que não comece a exigir royalties por cada aparição.
2. Estudaste jazz, passaste pela eletrónica e acabaste a construir um universo musical bastante próprio. Foi uma evolução consciente ou houve um momento em que pensaste «não sei muito bem o que estou a fazer, mas estou a gostar»?
Acho que foi sempre uma transição bastante natural. Depois de estudar jazz, comecei a desenvolver um interesse cada vez maior pela música eletrónica e quis explorar esse universo, perceber melhor como funcionava e aprender a trabalhar com essas sonoridades. Ao mesmo tempo, comecei a ouvir música bastante diferente daquilo a que estava habituada e a frequentar festivais como o Extramuralhas, que me abriram imenso os horizontes e me deram a conhecer novas referências e possibilidades. Foi através dessas experiências que comecei a perceber melhor o caminho que queria seguir enquanto produtora e compositora. No fundo, nunca senti que estivesse propriamente a mudar de direção, mas sim a descobrir novas formas de me expressar musicalmente.

3. Há quem diga que os músicos revelam a verdadeira personalidade quando estão em palco. No teu caso, qual das duas Gabci é mais perigosa: a que está em cima do palco ou a que anda pelo supermercado a comprar detergente?
Em cima do palco, à partida, está tudo relativamente controlado. Há luzes, música e alguma supervisão. Já no supermercado estou por minha conta e nunca se sabe muito bem o que pode acontecer… Posso entrar só para comprar detergente e sair de lá com uma série de decisões questionáveis. Acho que a Gabci do supermercado tem um potencial de imprevisibilidade que ainda não foi devidamente explorado.
4. Em Vanity Queen aparece uma personagem que parece ter tudo controlado. Achas que todos inventamos uma personagem para enfrentar o mundo ou há pessoas que são mesmo aquilo que aparentam? E essas não te assustam um bocadinho?
Acho que todos temos um bocadinho de personagem, de certa forma. Não necessariamente porque estejamos a fingir ser alguém que não somos, mas porque mostramos diferentes lados de nós próprios, dependendo das situações. Há quem seja mais fácil de decifrar do que outros, mas nunca conseguimos conhecer alguém na totalidade. E talvez seja precisamente isso que torna cada um de nós interessante.
5. Quando estás a compor, há alguma altura em que pensas «isto está a ficar demasiado estranho» ou esse é precisamente o momento em que percebes que estás no caminho certo?
Depende da estranheza! De vez em quando gosto mesmo de introduzir elementos mais bizarros ou inesperados, coisas que à primeira vista até podem parecer um bocadinho deslocadas. Acho que isso ajuda a fugir de uma sonoridade demasiado polida ou previsível. Gosto de alguma imperfeição, de coisas que não soam necessariamente convencionais. Nem sempre o estranho é um problema, às vezes é exatamente o que a música precisa.
6. Já tiveste alguma ideia musical absolutamente brilhante às quatro da manhã que, depois de dormires, se revelou uma coisa completamente absurda? Ou pior, continuaste a achar que era brilhante?
Não tenho muito esse hábito de ter ideias musicais a altas horas da madrugada. Mas já me aconteceu sair à noite, surgir uma melodia que naquele momento me parece incrível, gravá-la para não me esquecer e, no dia seguinte, perceber que talvez não fosse assim tão genial quanto parecia.
7. Também és DJ. Alguma vez te apeteceu interromper uma pista cheia e dizer «desculpem lá, mas vocês têm um gosto musical terrível»? E já tocaste alguma coisa só para perceber até onde podias abusar da paciência das pessoas?
Se a música não me estiver a agradar, prefiro simplesmente ir para outro lado onde a banda sonora esteja mais ao meu gosto. Felizmente, nos convívios com amigos já me costumam deixar a tarefa de escolher a playlist, por isso não tenho razões de queixa. Quanto a abusar da paciência da pista, gosto de sentir que o pessoal está a divertir-se, mas também aprecio introduzir algumas surpresas e fugir um bocadinho ao esperado. Acho que, se estiver convicta daquilo que estou a tocar, consigo levar as pessoas comigo. E, às vezes, até é interessante perceber como reagem a algo que não estavam à espera.

8. Há alguma coisa que aconteça num concerto e que nunca aconteça num ensaio, por mais que uma pessoa tente preparar tudo? E já te aconteceu o contrário, ensaiares uma coisa extraordinária que em palco decidiu morrer?
Às vezes, há uma determinada ordem de músicas que nos ensaios parece funcionar perfeitamente, mas que, quando chega ao palco, acaba por não resultar exatamente da mesma forma. Pode criar uma quebra na dinâmica do concerto ou simplesmente não ser o momento ideal para determinada música. Por exemplo, tinha um tema pensado para abrir o alinhamento, mas acabei por perceber que não fazia sentido tocá-lo na íntegra. Há concertos em que opto por não o incluir e outros em que aproveito apenas uma parte, que acaba por funcionar como uma pequena introdução.
9. Estás a preparar o primeiro álbum. O que estás a tentar fazer nele que ainda não conseguiste fazer nas músicas anteriores? E o que te recusas a mudar, mesmo que alguém te garanta que assim terias muito mais público?
Na verdade, as músicas do primeiro álbum já estão todas prontas e, neste momento, estou até a trabalhar em novas ideias para um segundo álbum. Creio que uma das coisas que procurei fazer neste primeiro trabalho foi explorar uma maior diversidade de sonoridades dentro do universo darkwave/synthpop. Quis que o álbum refletisse um pouco o meu percurso, as minhas descobertas musicais e as diferentes influências que fui absorvendo ao longo do tempo. Acaba por ser uma espécie de retrato daquilo que sou musicalmente nesta fase. Quanto ao que me recusaria a mudar, diria que seria precisamente essa liberdade de explorar e experimentar. Gosto de poder seguir as minhas próprias referências e intuições, sem sentir que tenho de encaixar necessariamente numa fórmula só.
10. Imagina que daqui a vinte anos alguém encontra um vídeo de um concerto teu, com o Pikachu na cabeça, e tenta explicar o que estava a acontecer. O que gostavas que essa pessoa percebesse? E o que preferias que continuasse sem perceber?
Gosto do contraste entre um universo mais sombrio e elementos inesperados que acabam por quebrar um bocadinho essa seriedade. O Pikachu encaixa perfeitamente nessa lógica, embora a verdade seja que a escolha do chapéu tenha sido bastante espontânea. Talvez daqui a vinte anos ainda esteja a tentar encontrar uma explicação para isso.
A escolha de Gabci
Ryder the Eagle — Lighthouse
«É uma música que me transporta para um lugar bastante nostálgico e, às vezes, gosto mesmo de sentir isso, apesar de não ser necessariamente uma sensação agradável. Tem qualquer coisa de melancólico que me toca e à qual gosto de voltar de vez em quando.»

