Vi isto de lado · Música

OITO DISCOS DE OUTUBRO QUE JÁ MERECEM SER OUVIDOS

VÁRIOS

Míope Vesgo

11 de outubro de 2026

OITO DISCOS DE OUTUBRO QUE JÁ MERECEM SER OUVIDOS

Outubro ainda vai no início e já saíram discos suficientes para ocupar várias semanas de escuta. Não vale a pena fingir que esta é uma lista definitiva nem chamar-lhe “os melhores do mês” quando ainda falta mais de metade dele. São simplesmente oito discos novos que nos interessaram por razões diferentes e que, neste momento, merecem tempo.

Não estão ordenados e não obedecem a um género comum. Há psicadelismo, post-punk, garage, soul, krautrock, guitarras bastante mal comportadas e algumas bandas que continuam a achar mais interessante complicar do que repetir aquilo que já lhes correu bem.

DEERHOOF — Divine Schism

Ao fim de tantos anos, os Deerhoof continuam pouco interessados em aprender a comportar-se como uma banda veterana. Divine Schism parte de uma ideia bastante improvável — uma espécie de oratório de ficção científica visto a partir do Sol — e passa por órgãos, sintetizadores, percussão, guitarras e estruturas que raramente parecem querer ficar quietas durante muito tempo.

Também decidiram editar o disco por conta própria e mantê-lo fora das plataformas habituais de streaming, concentrando a edição digital no Bandcamp e a venda física sobretudo na própria banda. Num momento em que praticamente tudo é feito para estar imediatamente disponível em todo o lado, também é interessante alguém decidir o contrário.

Para entrar no disco, começava por “Sun Like It Hot”.

SACRED BUZZ — Sacred Buzz

Os Sacred Buzz vêm de Berlim e neste primeiro álbum juntam krautrock, psicadelismo, garage, órgão e guitarras carregadas de fuzz sem transformar isso numa coleção de referências dos anos 60 e 70.

Há uma insistência rítmica constante e as músicas têm tempo para crescer, repetir-se e mudar ligeiramente enquanto estamos dentro delas. Não é um disco que esteja sempre à procura do momento seguinte e isso joga bastante a seu favor.

“Hivemind” é uma boa entrada. Depois logo se vê onde aquilo vai parar.

SPIKE FUCK — evidence

Spike Fuck passou vários anos entre músicas dispersas, desaparecimentos e uma carreira que nunca pareceu muito preocupada em transformar-se numa carreira propriamente dita. evidence é finalmente o primeiro álbum.

Há new wave, glam, soul, doo-wop e punk, mas o mais interessante é a maneira como tudo isso aparece misturado sem grande preocupação em mostrar onde começa uma influência e acaba outra. A voz muda constantemente entre ironia, cansaço, fragilidade e agressividade, e as canções conseguem ser bastante diretas sem ficarem previsíveis.

“Bored to Death” é provavelmente o sítio certo para começar.

BALTHVS — Manifest

Os BALTHVS são colombianos e trabalham há vários discos numa zona onde psicadelismo, funk e música instrumental se cruzam sem grande necessidade de escolher um lado.

Em Manifest, esse campo abre-se ainda mais. O trio continua assente numa relação muito física entre guitarra, baixo e bateria, mas aparecem outros ritmos e outras referências sem transformar o disco numa demonstração de ecletismo.

É música que funciona particularmente bem quando deixamos de tentar perceber de onde vem cada elemento e começamos simplesmente a seguir aquilo que está a acontecer.

Começava por “Pale Blue Dot”.

TÉLÉDÉTENTE 666 — Foxtrot

Os TÉLÉDÉTENTE 666 vêm de Estrasburgo e chamam àquilo que fazem “post post-punk”. Pelo menos reconhecem que já não é particularmente fácil aparecer em 2026 com um baixo repetitivo e uma guitarra angular e anunciar que se descobriu o post-punk.

Foxtrot mistura coldwave, psicadelismo, teclados, saxofone e momentos bastante mais próximos do synth-punk. Há uma estranheza francesa que ajuda e os títulos também não parecem interessados em explicar demasiado: “La piscine”, “Demain c’est lundi”, “3grammespasmoins”, “Le soldat perdu dans la forêt”.

“La piscine” é uma boa primeira tentativa.

TRAMHAUS — Blister

Os Tramhaus vêm de Roterdão e começaram por ser rapidamente arrumados na gaveta do post-punk, mas Blister mostra uma banda a tentar sair dela enquanto ainda mantém aquilo que inicialmente a tornava interessante.

As guitarras continuam tensas e o baixo continua muito presente, mas as músicas começam a abrir espaço, a demorar mais tempo e a aproximar-se do krautrock e do psicadelismo. Há menos urgência em chegar imediatamente a um refrão e mais vontade de deixar a música desenvolver-se.

“Plovdiv” abre o disco e serve perfeitamente para perceber por onde andam agora.

BODEGA — All Inside Aquarium

Os BODEGA podiam ter continuado a fazer o post-punk seco e minimalista com que ficaram conhecidos. Em All Inside Aquarium preferiram mexer na fórmula.

O disco aproxima-se bastante mais do rock alternativo dos anos 90, abre espaço para melodias e abandona parte daquela secura inicial da banda. Foi gravado com os músicos a tocar em conjunto numa antiga igreja em Leeds, o que também ajuda a explicar porque tudo parece menos fechado e mais solto.

Há até uma versão de “Slow Train”, de Bob Dylan, em que mantiveram a letra e escreveram música nova. Não é propriamente a decisão mais óbvia para uma banda que podia ter feito outro disco igual ao anterior.

Começava pela faixa que dá nome ao álbum, “All Inside Aquarium”.

DEATH VALLEY GIRLS — Welcome to Earth

Welcome to Earth nasceu depois de um período particularmente difícil para Bonnie Bloomgarden, incluindo a perda da casa nos incêndios da Califórnia. O resultado podia ter sido um disco inteiramente fechado sobre essa experiência, mas as Death Valley Girls fizeram outra coisa.

Continuam lá as guitarras fuzz, os órgãos e aquele lado garage que sempre fez parte da banda, mas há também vozes mais próximas dos girl groups, saxofone e uma energia que impede o disco de ficar preso à circunstância que lhe deu origem.

Não apaga aquilo que aconteceu nem transforma a perda numa coisa bonita. Simplesmente não deixa que seja a única coisa a definir o disco.

Começava por “Welcome to Earth”.

Daqui a duas semanas esta seleção pode ser diferente. Ainda bem. A ideia não é fechar outubro antes de outubro acabar, é ir apanhando aquilo que aparece e merece mais do que os trinta segundos habituais antes de passarmos à próxima coisa.

Por agora, estes oito ficam.

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