Outubro ainda vai no início e já saíram discos suficientes para ocupar várias semanas de escuta. Não vale a pena fingir que esta é uma lista definitiva nem chamar-lhe “os melhores do mês” quando ainda falta mais de metade dele. São simplesmente oito discos novos que nos interessaram por razões diferentes e que, neste momento, merecem tempo.
Não estão ordenados e não obedecem a um género comum. Há psicadelismo, post-punk, garage, soul, krautrock, guitarras bastante mal comportadas e algumas bandas que continuam a achar mais interessante complicar do que repetir aquilo que já lhes correu bem.

DEERHOOF — Divine Schism
Ao fim de tantos anos, os Deerhoof continuam pouco interessados em aprender a comportar-se como uma banda veterana. Divine Schism parte de uma ideia bastante improvável — uma espécie de oratório de ficção científica visto a partir do Sol — e passa por órgãos, sintetizadores, percussão, guitarras e estruturas que raramente parecem querer ficar quietas durante muito tempo.
Também decidiram editar o disco por conta própria e mantê-lo fora das plataformas habituais de streaming, concentrando a edição digital no Bandcamp e a venda física sobretudo na própria banda. Num momento em que praticamente tudo é feito para estar imediatamente disponível em todo o lado, também é interessante alguém decidir o contrário.
Para entrar no disco, começava por “Sun Like It Hot”.

SACRED BUZZ — Sacred Buzz
Os Sacred Buzz vêm de Berlim e neste primeiro álbum juntam krautrock, psicadelismo, garage, órgão e guitarras carregadas de fuzz sem transformar isso numa coleção de referências dos anos 60 e 70.
Há uma insistência rítmica constante e as músicas têm tempo para crescer, repetir-se e mudar ligeiramente enquanto estamos dentro delas. Não é um disco que esteja sempre à procura do momento seguinte e isso joga bastante a seu favor.
“Hivemind” é uma boa entrada. Depois logo se vê onde aquilo vai parar.

SPIKE FUCK — evidence
Spike Fuck passou vários anos entre músicas dispersas, desaparecimentos e uma carreira que nunca pareceu muito preocupada em transformar-se numa carreira propriamente dita. evidence é finalmente o primeiro álbum.
Há new wave, glam, soul, doo-wop e punk, mas o mais interessante é a maneira como tudo isso aparece misturado sem grande preocupação em mostrar onde começa uma influência e acaba outra. A voz muda constantemente entre ironia, cansaço, fragilidade e agressividade, e as canções conseguem ser bastante diretas sem ficarem previsíveis.
“Bored to Death” é provavelmente o sítio certo para começar.

BALTHVS — Manifest
Os BALTHVS são colombianos e trabalham há vários discos numa zona onde psicadelismo, funk e música instrumental se cruzam sem grande necessidade de escolher um lado.
Em Manifest, esse campo abre-se ainda mais. O trio continua assente numa relação muito física entre guitarra, baixo e bateria, mas aparecem outros ritmos e outras referências sem transformar o disco numa demonstração de ecletismo.
É música que funciona particularmente bem quando deixamos de tentar perceber de onde vem cada elemento e começamos simplesmente a seguir aquilo que está a acontecer.
Começava por “Pale Blue Dot”.

TÉLÉDÉTENTE 666 — Foxtrot
Os TÉLÉDÉTENTE 666 vêm de Estrasburgo e chamam àquilo que fazem “post post-punk”. Pelo menos reconhecem que já não é particularmente fácil aparecer em 2026 com um baixo repetitivo e uma guitarra angular e anunciar que se descobriu o post-punk.
Foxtrot mistura coldwave, psicadelismo, teclados, saxofone e momentos bastante mais próximos do synth-punk. Há uma estranheza francesa que ajuda e os títulos também não parecem interessados em explicar demasiado: “La piscine”, “Demain c’est lundi”, “3grammespasmoins”, “Le soldat perdu dans la forêt”.
“La piscine” é uma boa primeira tentativa.

TRAMHAUS — Blister
Os Tramhaus vêm de Roterdão e começaram por ser rapidamente arrumados na gaveta do post-punk, mas Blister mostra uma banda a tentar sair dela enquanto ainda mantém aquilo que inicialmente a tornava interessante.
As guitarras continuam tensas e o baixo continua muito presente, mas as músicas começam a abrir espaço, a demorar mais tempo e a aproximar-se do krautrock e do psicadelismo. Há menos urgência em chegar imediatamente a um refrão e mais vontade de deixar a música desenvolver-se.
“Plovdiv” abre o disco e serve perfeitamente para perceber por onde andam agora.

BODEGA — All Inside Aquarium
Os BODEGA podiam ter continuado a fazer o post-punk seco e minimalista com que ficaram conhecidos. Em All Inside Aquarium preferiram mexer na fórmula.
O disco aproxima-se bastante mais do rock alternativo dos anos 90, abre espaço para melodias e abandona parte daquela secura inicial da banda. Foi gravado com os músicos a tocar em conjunto numa antiga igreja em Leeds, o que também ajuda a explicar porque tudo parece menos fechado e mais solto.
Há até uma versão de “Slow Train”, de Bob Dylan, em que mantiveram a letra e escreveram música nova. Não é propriamente a decisão mais óbvia para uma banda que podia ter feito outro disco igual ao anterior.
Começava pela faixa que dá nome ao álbum, “All Inside Aquarium”.

DEATH VALLEY GIRLS — Welcome to Earth
Welcome to Earth nasceu depois de um período particularmente difícil para Bonnie Bloomgarden, incluindo a perda da casa nos incêndios da Califórnia. O resultado podia ter sido um disco inteiramente fechado sobre essa experiência, mas as Death Valley Girls fizeram outra coisa.
Continuam lá as guitarras fuzz, os órgãos e aquele lado garage que sempre fez parte da banda, mas há também vozes mais próximas dos girl groups, saxofone e uma energia que impede o disco de ficar preso à circunstância que lhe deu origem.
Não apaga aquilo que aconteceu nem transforma a perda numa coisa bonita. Simplesmente não deixa que seja a única coisa a definir o disco.
Começava por “Welcome to Earth”.
Daqui a duas semanas esta seleção pode ser diferente. Ainda bem. A ideia não é fechar outubro antes de outubro acabar, é ir apanhando aquilo que aparece e merece mais do que os trinta segundos habituais antes de passarmos à próxima coisa.
Por agora, estes oito ficam.

