Há pessoas que escrevem livros, outras escrevem anúncios, outras ainda passam boa parte do tempo a escrever para que alguém pareça estar a falar com a própria voz. Marisa Sousa trabalha precisamente nesse espaço estranho entre aquilo que alguém quer dizer e aquilo que acaba por ficar escrito. Falámos de ghostwriting, pessoas que ficam melhores no texto do que na vida real, listas telefónicas afetivas, Mercadona, correio sentimental e da possibilidade de ainda haver esperança para os telefones fixos.
Passas muito tempo a escrever para que outras pessoas pareçam estar a falar. Quando entras na voz de alguém, o que é que tens de calar em ti?
Também passo muito tempo a escrever para que outras pessoas «pareçam bem na fotografia» quando estão caladas. Nunca entro na voz de ninguém. O que faço é estabelecer contacto, conhecer as curvas, as retas e as arestas dessa voz, saber o que diz e o que ainda não sabe que sabe dizer. Geralmente, enquanto falo e escrevo por outros, a minha voz fica só a observar, por vezes inquieta, outras tremendamente aborrecida. A voz do texto também se ensina e se disciplina.
O que é mais difícil: perceber aquilo que alguém quer dizer ou perceber como essa pessoa diria aquilo sem soar a ti?
O mais difícil é sempre escrever para pessoas. Costumo dizer que um texto só serve se servir alguém. Em tempos de Santa IA, as nossas vias e canais de comunicação estão frenéticos e hiperativos, atulhados de textos marca branca que não foram escritos por pessoas e não serão lidos por pessoas. É uma espécie de lixo comunicacional. O mais difícil é sempre conseguir a atenção de alguém nesta Via Láctea dos verbos vazios.
Já escreveste alguma coisa para alguém e pensaste: “esta pessoa ficou melhor no texto do que é na vida real”?
Todos os dias. Somos todos muito melhores por escrito do que vistos de perto.
Um bom ghostwriter deve desaparecer completamente ou há sempre qualquer coisa sua que fica escondida no texto?
Um bom ghostwriter nunca pode desaparecer completamente, sob pena de ficarmos com folhas vazias, termos de fechar a loja e irmos trabalhar para o Mercadona. Somos barrigas de aluguer. A criança é sempre um pouco nossa, mesmo que saia com o nariz um pouco grande e aquela ruga na testa igual à do pai. Escrevemos coisas que nunca escreveríamos se não nos tivessem pedido. Mas, se estava na cabeça, no horizonte, nos sonhos ou nos projetos de alguém, faz sentido que emprestemos as mãos e os advérbios.
Se alguém te dissesse: “quero parecer mais inteligente, mais interessante e mais humano do que sou”, isso ainda era um trabalho de escrita ou já era ficção?
A ficção é uma das melhores amigas da escrita. A realidade também. Ou talvez não. Isto dava-nos para mais algumas horas de conversa. No teu blogue ou no meu?
Há alguma coisa que recusarias escrever mesmo sabendo que conseguias fazê-la muito bem?
Muitas. Ameaças, cartas anónimas, rótulos para detergentes, a lista telefónica da Nova Zelândia. Agora a sério: por acaso, até gostaria de escrever rótulos para detergentes. E correio sentimental. Confesso: talvez tenha sido influenciada pelo último episódio do Míope Vesgo.
Se tivesses de escolher uma pessoa para quem seria absolutamente impossível escrever, quem seria e porquê?
Os fascistinhas idiotas desta vida. Pelas razões óbvias.

Imagina que amanhã deixam de existir clientes, briefings, redes sociais e textos assinados por outras pessoas. O que escreverias primeiro?
Uma lista telefónica afetiva para restaurar o contacto pessoal entre as pessoas e apelar ao regresso dos telefones fixos, das cabines telefónicas e do «Quando o telefone toca». E perguntas tu: o que é uma lista telefónica afetiva? E eu respondo: ainda bem que me fazes essa pergunta. É uma lista telefónica que, além do nome e número de telefone das pessoas, indica uma pequena bio.
Por exemplo: Adérito Soutelo, telemóvel n.º 912 345 678. É adepto do Sporting desde pequenino, é vegetariano e gosta de jogar damão. Chora sempre que vê O Diário da Nossa Paixão, tem uma gata chamada Belinha e gosta muito de charadas e de fazer sopas de letras.
Vodafone, Meo, NOS: se me estão a ouvir, pisquem duas vezes. Está aqui um conceito vencedor. E não me venham falar de RGPD. É anti-poético.
Se alguém lê um texto teu assinado por outra pessoa e diz “isto é mesmo a cara dela”, sentes que fizeste bem o trabalho ou que desapareceste demasiado?
Sinto que fiz o meu trabalho.
Para terminar: deixa-nos um livro, um texto ou uma música que tenha ficado contigo durante anos. O que escolhes e porquê?
Pedes-me um ou outro ou outro. Não gosto de escolher. Vou indicar um trio abençoado, como era o Trio Odemira. Por falar nisso, também gostava de ter escrito canções para eles.
Um livro: Crime e Castigo, porque Dostoiévski remexe-nos as entranhas da psique humana como um mestre. Uma música muito especial: “You Look Like Rain”, dos Morphine. Porque sim. E um texto: “Como ler poesia”, de Leonard Cohen, na tradução de Vasco Gato. É afrodisíaco, redentor e mágico. Não sei se há espaço no Míope para tantos caracteres, mas isso agora já é um problema teu.

