Conversas · Música

Rita NabaisRITA NABAIS E A IMPOSSIBILIDADE DE OUVIR MÚSICA EM PAZ

Entrevista por Míope Vesgo

25 de outubro de 2026

RITA NABAIS E A IMPOSSIBILIDADE DE OUVIR MÚSICA EM PAZ

A história do rock português não começou nos anos 80, embora às vezes pareça que alguém se esqueceu de avisar uma parte considerável do país. Antes da explosão mediática dessa década, já existiam bandas a experimentar, músicos a arriscar e guitarras elétricas a incomodar a tranquilidade nacional.

Rita Nabais decidiu mergulhar nessa história e organizá-la em A História do Rock Português, um livro que reúne 164 artistas e bandas, com ilustrações de Tiago Albuquerque. Um trabalho de investigação que obriga a escolhas difíceis, recupera nomes que merecem voltar a ser ouvidos e demonstra que a memória musical é bastante menos organizada do que as prateleiras das discotecas.

Conversámos sobre as décadas que construíram o rock português, as bandas que desapareceram dos registos e o que acontece quando alguém passa tanto tempo a investigar música que já não consegue simplesmente ouvi-la.

1. Quando tens 164 artistas e bandas com entrada própria, escolher quem entra também significa decidir quem fica de fora. Qual foi a exclusão que mais te custou?

Essa é uma das partes mais difíceis de construir um livro destes: escolher quem entra implica inevitavelmente deixar alguém de fora. Gostava que tivesse havido espaço para todos os nomes que mereciam ser recordados. Uma das ausências que mais me custou foi a dos Ex-Votos.

2. Durante a pesquisa, houve algum nome que te obrigasse a rever a história do rock português que tu própria tinhas na cabeça?

O estudo e a pesquisa das duas primeiras décadas abordadas no livro, os anos 60 e 70, foram essenciais para compreender e explicar a explosão do rock português nos anos 80. Essa explosão não surgiu do nada, nem aconteceu por acaso. Houve um percurso anterior, com experiências, bandas e músicos que foram criando as condições para aquilo que viria a acontecer. Há muito Rock e bom Rock antes da década de 80.

3. Há bandas que desaparecem porque não eram suficientemente boas e outras porque ninguém guardou discos, fotografias, histórias ou sequer se lembrou de escrever sobre elas. Até que ponto a história da música acaba por ser também a história de quem teve a sorte de ficar documentado?

Os artistas e as bandas mais notáveis ou influentes estão, de uma forma ou de outra, documentados, embora nem sempre com o mesmo rigor ou profundidade. Existem bloggers, sobretudo os mais antigos, e alguns livros que se dedicaram a explorar este universo, ainda que o trabalho esteja longe de ser suficiente. Há também os arquivos da RTP e verdadeiras pérolas perdidas nas revistas da especialidade, que ajudam a recuperar memórias e a reconstruir percursos.

Mas tenho de te dar razão: é muito provável que existam inúmeras bandas que ficaram de fora da história, não necessariamente por falta de qualidade ou de importância, mas porque não sobreviveu documentação suficiente sobre elas. E, quando não há registos, discos, fotografias ou testemunhos, torna-se muito mais difícil recuperar essas histórias e ilustrar músicos sem fotografias ou imagens com qualidade.

4. Falamos muitas vezes dos anos 80 como uma espécie de idade de ouro do rock português. Foram mesmo assim tão extraordinários ou aprendemos a contar essa década melhor do que as outras?

Acho que as duas coisas são verdadeiras. Nos anos 80 surgiram muitas bandas, muitas delas a cantar em português, que conseguiram chegar a um público alargado, vender muitos discos e conquistar espaço na rádio. Foi uma década de grande visibilidade e afirmação do rock português.

Ainda assim, pessoalmente, acho particularmente interessante o período que vai de meados dos anos 80 até meados dos anos 90. Foi uma fase de grande diversidade, em que surgiram propostas muito diferentes e se abriu caminho a novas sonoridades e formas de expressão. Por isso, embora os anos 80 tenham sido extraordinários, também me interessa muito aquilo que aconteceu na transição para a década seguinte.

5. Se depois de terminares o livro te proibissem de usar a palavra “rock” no título, como lhe chamarias?

Isso é uma maldade! Sei lá! Guitarras elétricas para pais fanáticos e filhos com punkada.

6. Há alguma banda ou artista português muito consensual cuja importância histórica percebas perfeitamente, mas que pessoalmente nunca te tenha convencido?

Há várias, mas não vou dizer o nome de nenhuma.

7. Se pudesses obrigar toda a gente em Portugal a ouvir hoje uma única canção esquecida ou pouco conhecida que encontraste durante a pesquisa, qual escolherias?

Há muitas, mas como só me deixas escolher uma, escolho o tema “Tartária”, dos Tártaros, de 1964.

8. Daqui a trinta anos alguém vai tentar contar a música portuguesa que se faz agora. O que achas que estamos a ignorar hoje e que nessa altura nos pode fazer parecer distraídos?

Há bandas muito interessantes a explorar o rock alternativo e psicadélico, enquanto outras desenvolvem projetos mais irreverentes e difíceis de catalogar. Gosto muito dos Basset Hounds, que estão em pausa, dos Glockenwise e dos Them Flying Monkeys.

E depois há os Mão Morta, que continuam a surpreender pela originalidade e pela capacidade de se reinventarem. Para mim, continuam a ser uma referência extraordinária nesse aspeto. Acho que, muitas vezes, só com o passar do tempo conseguimos perceber verdadeiramente a importância de determinadas bandas e o que trouxeram de novo à música portuguesa.

9. Depois de passar anos a organizar décadas, bandas e canções, consegues voltar a ouvir música sem imediatamente a colocar numa época, numa influência ou numa ligação qualquer?

Não. Existe uma espécie de matrix permanente no meu cérebro que, sempre que ouve algo novo, começa automaticamente a procurar referências, influências e ligações a outras bandas ou épocas. Já me acontecia antes de fazer o livro, mas agora acontece ainda mais. É quase impossível desligar esse mecanismo: ouvir música passou também a ser uma forma de estabelecer ligações e de reconhecer histórias que, muitas vezes, estão escondidas por trás de um som.

10. Para terminar, deixa-nos uma música. Não precisa de ser portuguesa nem de ter entrado no livro. Pode ser uma que te acompanhe há muitos anos ou simplesmente aquilo que te apetece ouvir agora. O que escolhes e porquê?

Ando obcecada com um álbum dos Replacements, de 1984, deixo-te este tema: "Favorite Thing".

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