A CIDADE TEM DONO. E NÃO ÉS TU.

Trabalhas, pagas a renda, a luz, a água, compras comida e, se tiveres sorte, ainda sobra dinheiro para uma extravagância. Como ir ao dentista.

Míope Vesgo

21 de outubro de 2026

A CIDADE TEM DONO. E NÃO ÉS TU.

O salário caiu na conta. Pagámos a renda, a eletricidade, a água, a internet, fizemos compras no supermercado e abastecemos o carro. Ainda nem chegámos a meio do mês e já estamos a olhar para o saldo como quem tenta perceber onde correu mal uma relação.

Entretanto, aparecem os especialistas com os conselhos habituais. É preciso poupar, investir, fazer um orçamento, evitar despesas desnecessárias e, se possível, deixar de tomar café fora de casa. O café, como sabemos, é o grande responsável pela crise económica das famílias portuguesas. Não são os salários, nem as rendas, nem o preço dos alimentos. São aqueles oitenta cêntimos que alguém teve a irresponsabilidade de gastar ao balcão.

Talvez estejamos a fazer as perguntas erradas. Em vez de perguntar às pessoas porque não conseguem poupar, podíamos experimentar perguntar porque é que trabalhar deixou de ser suficiente para viver com alguma tranquilidade.

Parabéns, já não és pobre

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, o limiar de risco de pobreza relativo aos rendimentos de 2024 situava-se nos 723 euros mensais por adulto equivalente. A taxa oficial desceu para 15,4%.

É uma evolução positiva, naturalmente. Mas gostava de conhecer o extraordinário exercício de imaginação necessário para considerar que uma pessoa sozinha, a ganhar pouco mais de 723 euros, consegue arrendar uma casa, alimentar-se, pagar as despesas essenciais e ainda ter alguma participação na sociedade.

O INE não inventou este limiar para nos convencer de que 724 euros chegam para viver. É uma medida relativa, com uma metodologia própria, e serve para aquilo que pretende medir. O problema começa quando transformamos um indicador estatístico numa espécie de certificado de bem-estar.

Ganhas 722 euros? Estás abaixo do limiar. Ganhas 724? Parabéns, ultrapassaste a fronteira estatística. O senhorio continua à espera da renda, mas pelo menos já tens uma conquista para celebrar.

O relatório Pobreza e Exclusão Social em Portugal 2026, da Rede Europeia Anti-Pobreza, introduz uma variável particularmente inconveniente para o otimismo: quando são considerados os custos da habitação, a estimativa de pobreza passa de 15,4% para 26,8%.

A casa, esse pequeno capricho burguês de quem insiste em não dormir na rua.

A extraordinária arte de trabalhar para continuar pobre

Durante muito tempo venderam-nos uma ideia relativamente simples: estudar, trabalhar, ganhar experiência, progredir na carreira e construir uma vida.

Não era uma promessa universal, nunca foi. Mas era suficientemente convincente para organizar as expectativas de várias gerações.

Hoje, podemos estudar, trabalhar, acumular funções, fazer formações, desenvolver competências, reinventar-nos profissionalmente e continuar sem perceber como vamos conseguir pagar uma renda de mercado.

O mais interessante é que a responsabilidade parece recair sempre sobre quem recebe o salário. Se não chega, falta-lhe formação. Se tem formação, falta-lhe iniciativa. Se trabalha por conta própria, devia procurar estabilidade. Se tem um emprego estável, devia criar um rendimento extra. Se já tem dois empregos, provavelmente ainda não descobriu o potencial da inteligência artificial para rentabilizar as suas horas de sono.

Em 2024, 8,6% das pessoas empregadas em Portugal estavam em risco de pobreza. É uma proporção que devia provocar mais desconforto do que provoca.

Afinal, qual é exatamente o prémio por cumprir todas as obrigações de uma vida profissional se, no fim do mês, continuamos a ter dificuldades em satisfazer as mais básicas?

E não estamos apenas a falar do salário mínimo. Estamos a falar de profissionais qualificados, trabalhadores independentes, pessoas com décadas de experiência e famílias onde entram dois rendimentos, mas onde a tranquilidade financeira continua a ser uma espécie de lenda urbana.

A produtividade é uma preocupação permanente da economia portuguesa. Talvez também fosse interessante começarmos a discutir a produtividade do salário: quanto consegue ele realmente comprar depois de lhe retirarmos aquilo que custa simplesmente existir?

A classe média, essa criatura mitológica

A classe média continua a aparecer nos estudos, nos discursos políticos e nas estratégias de marketing. É uma categoria extraordinariamente útil, sobretudo porque permite juntar pessoas com experiências económicas bastante diferentes.

Ter um rendimento superior ao limiar de pobreza não significa conseguir comprar casa. Ter qualificações não significa conseguir poupar. Ter emprego não significa conseguir enfrentar um imprevisto sem recorrer a crédito ou à família.

E, no entanto, continuamos a chamar estabilidade a situações que podem desmoronar-se com um despedimento, uma doença, uma separação ou o fim de um contrato de arrendamento.

A pobreza não começou agora. Para quem nunca teve emprego, vive com rendimentos muito baixos ou depende de apoios insuficientes, esta insegurança não é uma descoberta recente. Sempre houve pessoas para quem pagar uma casa era praticamente impossível.

O que está a mudar é a forma como muitos outros começam a reconhecer essa possibilidade no seu próprio futuro.

Não é necessário afirmar que a classe média desapareceu para reconhecer a fragilidade da sua segurança económica. Basta perguntar a alguém com um salário aparentemente razoável quanto tempo conseguiria viver sem trabalhar.

Em muitos casos, a resposta não será dada em anos, nem sequer em muitos meses.

E é curioso que uma sociedade tão preocupada com a responsabilidade individual tenha construído tantas condições em que basta um único azar para colocar em causa anos de trabalho.

O Porto está lindíssimo. Pena a renda.

O Porto recuperou fachadas, atraiu investimento, ganhou hotéis, restaurantes, apartamentos turísticos e reconhecimento internacional. Há edifícios que estiveram décadas abandonados e que hoje parecem acabados de sair de uma revista de arquitetura.

É bom que os edifícios sejam recuperados. O problema começa quando recuperar a cidade significa tornar progressivamente impossível viver nela.

Os bairros transformam-se, o comércio adapta-se, os espaços culturais enfrentam dificuldades e aquilo que antes era uma comunidade passa a ser apresentado como uma experiência autêntica.

A autenticidade tornou-se um excelente negócio. Especialmente quando os seus antigos protagonistas já não conseguem pagar para continuar a participar nela.

Podemos visitar bairros típicos, consumir gastronomia tradicional, fotografar fachadas antigas e celebrar a identidade local. Convém apenas não perguntar onde vivem agora algumas das pessoas que ajudaram a construir essa identidade.

Mas não é apenas o turismo, nem apenas a especulação imobiliária, nem sequer apenas a habitação. Esses fenómenos agravam problemas que não se resolvem enquanto o rendimento de quem trabalha continuar tão afastado das despesas que precisa de suportar.

O aumento do custo de vida não desaparece quando saímos do centro do Porto. As compras continuam a custar dinheiro, a energia não fica necessariamente barata e os transportes acrescentam despesas e tempo a quem é obrigado a viver cada vez mais longe.

A solução implícita parece ser relativamente simples: afastem-se dos sítios onde trabalham, aceitem perder mais tempo em deslocações e continuem a contribuir para a vitalidade económica das cidades onde já não conseguem morar.

É uma forma bastante original de desenvolvimento urbano.

A cultura é para todos. Desde que possam pagar.

Quando se fala do custo de vida, a cultura costuma desaparecer da discussão. Primeiro garantimos o essencial, dizem-nos. Depois, se sobrar alguma coisa, pensamos no resto.

O problema é que o resto também faz parte da vida.

Ir a um concerto, comprar livros, frequentar uma exposição, jantar com amigos ou simplesmente ter algum dinheiro disponível para fazer uma coisa inesperada não devia ser considerado um comportamento financeiramente irresponsável.

Uma vida reduzida ao pagamento de necessidades básicas pode ser uma vida contabilisticamente organizada. Não significa que seja uma vida satisfatória.

E há uma contradição particularmente interessante: celebramos a criatividade, promovemos festivais, valorizamos a cultura como fator de desenvolvimento económico e depois aceitamos com relativa naturalidade que muitos dos profissionais que a produzem tenham dificuldades em viver nas cidades onde trabalham.

A cultura é importante para a economia, para o turismo e para a imagem das cidades. Para quem a faz, aparentemente, fica a satisfação pessoal.

Felizmente, a satisfação pessoal ainda não está sujeita a IVA.

Viver acima das nossas possibilidades

As manifestações pela habitação voltaram a colocar pessoas na rua, mas seria um erro reduzir esta discussão à relação entre inquilinos e proprietários.

A questão é mais funda: que modelo económico estamos a aceitar quando o trabalho não garante autonomia, quando a habitação absorve uma parte tão elevada dos rendimentos e quando uma quantidade crescente de decisões quotidianas passa a depender exclusivamente do dinheiro que conseguimos não gastar?

O país tem problemas reais de produtividade, investimento, oferta habitacional e distribuição de rendimentos. Não existem soluções simples, e seria pouco sério fingir que basta identificar um culpado para resolver tudo.

Mas também seria pouco sério continuar a apresentar as dificuldades económicas das famílias como uma sucessão de falhas individuais de planeamento.

Podemos discutir durante horas o que é um salário justo, que políticas de habitação funcionam ou como se cria uma economia mais produtiva. Devíamos fazê-lo. Mas, enquanto discutimos, há pessoas a escolher entre despesas que deveriam conseguir suportar simultaneamente.

E talvez o maior triunfo deste estado de coisas seja termos começado a aceitar como normal aquilo que devia parecer absurdo.

Trabalhar o mês inteiro e ficar sem dinheiro deixou de ser surpreendente. Não conseguir sair de casa dos pais aos trinta ou quarenta anos transformou-se numa etapa possível da vida adulta. Precisar de ajuda familiar para pagar uma renda passou a ser uma solução prática. Adiar filhos, consultas médicas, férias ou projetos pessoais tornou-se uma demonstração de prudência.

Depois perguntam-nos porque estamos pessimistas.

A resposta é bastante simples: não estamos a pedir que nos ofereçam uma vida extraordinária. Estamos a questionar porque é que uma vida razoavelmente normal se tornou tão difícil de pagar.

E, se a solução continuar a ser trabalhar mais, gastar menos e aprender a viver sem quase nada, talvez seja altura de deixar de chamar a isto progresso.

Podemos chamar-lhe adaptação. Fica mais elegante do que resignação.

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