O COMETA PASSOU POR AQUI
IMAGINAR UMA NOITE
24 de setembro de 2026

A Noite do Cometa começou como muitas ideias começam: parecia simples enquanto ainda não tinha orçamento, horários, técnicos, bandas, alojamentos, bilhetes, pulseiras, mensagens por responder e uma porta prestes a abrir. No papel era fácil imaginar quatro bandas, música entre concertos, visuais, bar, pessoas a entrar e a sair e uma noite contínua até às três da manhã. Depois começa a organização e a ideia ganha peso. No Capítulo II, O Regresso, a noite aconteceu no OPO’LAB, no Porto, com Manga Cava, Mordo Mia, Lesma e Fugly em palco, Jorge Monteiro a ocupar os intervalos e ILLVIT nos visuais. A intenção era que não houvesse propriamente quatro concertos encostados uns aos outros, mas uma noite com continuidade, e isso parece uma diferença pequena até se começar a montar tudo.
Uma banda atrasa-se, outra precisa de qualquer coisa que ninguém tinha previsto, aparecem horários de passagem de som, refeições, alojamentos, equipamento, listas, convidados, bilheteira, comunicação e gente a perguntar coisas diferentes ao mesmo tempo, enquanto o relógio começa lentamente a trabalhar contra nós. Entretanto, quem entra pela porta não quer saber de nada disso, e ainda bem. Quer entrar, encontrar pessoas, beber qualquer coisa, ver uma banda e deixar-se ficar. Essa é uma das partes mais estranhas de produzir um evento: passamos semanas a olhar para uma máquina por dentro para que, na noite, ninguém veja a máquina. Quando funciona, parece fácil.
Há também um momento em que o evento deixa de nos pertencer. Até à abertura de portas ainda podemos mexer em quase tudo, mas depois entram pessoas, começam conversas, formam-se grupos, alguém encontra alguém que não via há anos, outra pessoa descobre uma banda, alguém vai embora demasiado cedo e outro fica até acenderem as luzes. A noite começa a construir uma versão dela própria, que já não coincide totalmente com aquilo que imaginámos. E isso é provavelmente uma das melhores partes. Organizar uma noite apenas para confirmar uma imagem que já tínhamos na cabeça seria uma maneira bastante cara de evitar surpresas.
O Cometa interessa-me precisamente por isso. Não é apenas pôr bandas num palco. É criar as condições para acontecer qualquer coisa que não controlamos completamente. Algumas decisões resultam, outras ensinam-nos rapidamente porque é que não deviam ser repetidas, e algumas só se percebem quando já há pessoas lá dentro. Também faz parte. No fim ficam cabos no chão, copos, contas por fechar, fotografias, mensagens no telemóvel e aquela sensação ligeiramente absurda de termos passado semanas a construir uma coisa que existiu durante algumas horas. Depois, inevitavelmente, começamos a pensar na próxima.
A Noite do Cometa — Capítulo II: O Regresso
19 setembro 2026 · OPO’LAB · Porto
