O disco foi gravado praticamente em direto no Chinfrim Estúdios, depois de muitas das músicas já terem passado pelo palco e mudado com os concertos. Rodrigo Vaiapraia fala precisamente do palco como laboratório, um lugar onde percebe o que funciona, o que precisa de ser mexido e o que ganha outra forma quando deixa de estar fechado numa demo.
Isso sente-se. As músicas não chegam limpas de tudo aquilo que podia incomodar. Há guitarras que avançam um pouco mais do que seria prudente, coros que não pedem licença, mudanças que podiam ter sido suavizadas e frases que outro produtor talvez mandasse repetir. O disco ganha com isso porque conserva uma coisa que muita música perde quando começa a ser demasiado bem resolvida: personalidade.
Não é falta de competência, antes pelo contrário. O problema aparece quando competência e asseio começam a produzir discos que reconhecemos imediatamente, mas que esquecemos com a mesma rapidez. Tudo está certo, tudo encaixa, tudo chega no sítio previsto e, ao fim de três minutos, seguimos viagem.
Nos Vaiàpraia há mais atrito.

Rodrigo escreveu grande parte destas canções depois de sair de Portugal, primeiro para Glasgow e depois para Londres, e essa distância acabou por entrar também na escrita. Em Way Way, português e inglês cruzam-se sem cerimónia, mas a questão da língua vai além da canção: tocar em Londres obrigou-o a perceber o que sobrava quando o público não entendia as letras. A resposta veio pela voz, pelo baixo, pela presença e pela forma como as músicas se aguentavam sem tradução.
As palavras continuam, ainda assim, a fazer bastante trabalho. Em Alegria Terminal aparecem desejo, dinheiro, relações, contradições, vergonha, política e humor, mas sem aquela necessidade de transformar cada assunto numa declaração solene. Ulucrudador, por exemplo, consegue meter dinheiro, dor, fármacos, greve, corpo e um porquinho mealheiro dentro da mesma música sem parecer que alguém esteve a distribuir temas por departamentos.
Também ajuda que Rodrigo escreva a partir de contradições em vez de personagens já resolvidas. Numa entrevista, fala do interesse pelo choque entre aquilo em que acreditamos politicamente e aquilo que desejamos ou fazemos na intimidade, sobretudo quando essas duas coisas recusam alinhar-se. Isso é muito mais interessante do que uma canção passar três minutos a confirmar que o narrador tem razão.
O humor impede ainda que o disco se apaixone demasiado por si próprio. Há títulos, imagens e frases que desfazem qualquer tentação de solenidade e fazem com que a música continue próxima da vida real, onde uma pessoa pode estar a pensar no capitalismo, na atração errada e no jantar ao mesmo tempo.
Musicalmente, o álbum também não se demora demasiado. São onze faixas, muitas delas curtas, e a gravação em conjunto ajuda a manter a sensação de pessoas a reagirem umas às outras em vez de peças encaixadas uma a uma até já não haver nada fora do lugar.
É por isso que chamar-lhes punk, pós-punk, pop ou queer rock ajuda pouco. As referências estão lá, mas não chegam para explicar o resultado. O que distingue os Vaiàpraia não é terem encontrado um género raro, é terem encontrado uma maneira própria de fazer coisas reconhecíveis sem as deixarem ficar demasiado confortáveis.
Alegria Terminal podia ter sido mais limpo, mais elegante e provavelmente mais fácil de arrumar. Ainda bem que não foi.

