Conversas · Arte & Design

PENSAR ATRAVÉS DO DESENHO

Cristina Moreira

05 de outubro de 2026

PENSAR ATRAVÉS DO DESENHO

Cristina Moreira trabalha entre o design e a ilustração, duas disciplinas que tanto se ajudam como se atrapalham. Uma organiza, estrutura e procura coerência; a outra permite-lhe apagar, desarrumar, deixar uma linha torta e aceitar que nem tudo precisa de estar controlado. Falámos de beleza, erro, estilo, inteligência artificial, inveja boa e liberdade, sem tentar pôr tudo demasiado certinho.

Quando uma ilustração fica demasiado bonita, desconfias dela?

Na verdade, o “bonito” já foi mais importante para mim do que é agora. Eu não desconfio de nada, só dos políticos que governam o nosso país.

Já estragaste um trabalho de propósito porque estava demasiado certinho?

Não sei se diria “estragar”. Às vezes preciso de o desarrumar, tirar, apagar, deixar uma linha mais torta, uma mancha, uma imperfeição. Quando tudo está demasiado certinho, começo a sentir que estou a ver uma coisa acabada antes de estar verdadeiramente viva.

O que é que o design te ensinou que a ilustração teve de te fazer desaprender?

O design ensinou-me a organizar, a estruturar, a pensar no todo, na hierarquia e na comunicação, e isso é muito útil. Mas a ilustração obrigou-me a aceitar que nem tudo precisa de estar explicado, alinhado ou controlado. Tive de aprender a deixar espaço para o erro, para a intuição e para aquilo que aparece pelo caminho.

Há alguma coisa que nunca desenharias, mesmo que te pagassem muito bem?

Provavelmente alguma coisa que fosse contra aquilo em que acredito ou que usasse a ilustração para manipular, humilhar ou desumanizar alguém. Posso desenhar coisas desconfortáveis, o que não gostava era de desenhar alguma coisa em que sentisse que estava a trair aquilo que penso.

Preferes uma ilustração imediatamente compreendida ou uma ilustração que obrigue alguém a ficar mais cinco segundos?

Não sou muito de metáforas ou de imagens muito confusas. Prefiro algo mais direto e concreto, pelo menos é isso que pretendo, embora também dependa muito de quem está a ver.

Fiz um livro para crianças sobre o “não”, sobre quando devemos dizer “não” para nos protegermos em várias situações, muito útil nos dias que correm, e criei uma personagem que é o “Não”. É algo fantasioso, que não existe na realidade, mas que é compreendido no imediato.

Já tiveste inveja de uma ilustração? Daquelas em que pensas: “porra, gostava de ter sido eu a fazer isto”?

Inveja boa, claro, muitas vezes. Eu costumo dizer: “Que génio!”. Vejo muita coisa e ver aquilo que admiramos, aquilo que gostaríamos de fazer, abre uma porta dentro da nossa cabeça.

Se tivesses de abdicar para sempre de uma destas coisas — cor, texto ou figura humana — qual sacrificavas?

Texto, embora com alguma dificuldade, porque também gosto muito da relação entre imagem e palavra. Mas acho que conseguiria contar uma história sem texto. Já sem cor ou sem figura humana seria mais difícil para mim.

O que é mais perigoso para um ilustrador: não ter estilo ou perceber que encontrou um?

Não ter estilo pode ser angustiante, mas também significa que ainda estamos a experimentar. Quando encontramos uma fórmula que funciona, existe a tentação de a repetir porque sabemos que resulta. O estilo vem com o tempo, eu acredito nisso.

A inteligência artificial consegue fazer ilustrações cada vez mais convincentes. O que é que ainda procuras numa ilustração que não se resolve com “ficar bem feita”?

Uma ilustração pode estar tecnicamente perfeita e não me dizer absolutamente nada. Aquilo que me interessa é sentir que alguém esteve ali a pensar, a escolher, a errar, a insistir, a deixar alguma coisa de si. Para mim, ilustrar não é simplesmente produzir uma imagem bonita, é pensar através de imagens.

Alguma vez um erro ficou tão bom que começaste a fingir que era intencional?

Mais do que uma vez. A ilustração é aliada do erro, bora!

Se alguém te pedisse para ilustrar “Portugal” sem usar sardinhas, azulejos, elétricos, galos, cravos ou mar, por onde começavas?

Nunca pensei muito nisso, mas falta aí também a andorinha. Fiz um projeto para a empresa onde trabalho e usei a imagem da andorinha para definir Portugal.

Que ilustração gostavas que alguém encontrasse tua daqui a cinquenta anos sem saber quem a fez?

Neste momento, do pouco que fiz, diria que gostava que encontrassem o livro que fiz no mestrado, Vemos, Ouvimos e Lemos, sobre a liberdade.

É um livro que nasceu de uma investigação sobre pequenos gestos de liberdade e resistência durante o Estado Novo. Recolhi histórias reais de pessoas que, de formas muito diferentes, encontraram pequenas maneiras de resistir e atos de coragem. São histórias que aconteceram há mais de cinquenta anos, mas que continuam a falar muito do presente.

Fiz o livro a pensar sobretudo nas gerações mais novas, mas não é exclusivamente para crianças. Queria que fosse acessível a diferentes idades e que conseguisse falar de um período terrível da nossa história.

Daqui a cinquenta anos, gostava que alguém encontrasse este livro sem saber quem o fez e que, ao lê-lo, percebesse duas coisas: primeiro, que a liberdade nunca deve ser tomada como garantida e, segundo, que a história também é feita de pequenos gestos, de pessoas comuns e de escolhas que, naquele momento, podem parecer insignificantes.

Se uma pessoa, daqui a cinquenta anos, olhar para aquelas imagens e sentir que ainda têm alguma coisa para lhe dizer, acho que teria valido a pena fazê-lo.

Se amanhã deixasses de trabalhar com ilustração, de que parte sentias falta primeiro?

Da criatividade, do processo e do resultado final, de tudo. É uma paixão.

Deixa-nos uma música. Pode ser uma de que gostes muito, uma que tenha ficado contigo há anos ou simplesmente aquilo que andas a ouvir agora. O que escolhes e porquê?

A música que vou sugerir é portuguesa e é do Jorge Palma. Sempre gostei dela pelo lado humano e social, porque fala de solidão, fragilidade, amizade e da necessidade de encontrar um lugar onde possamos simplesmente ser nós próprios.

Há uma ideia que me parece particularmente bonita: o “Bairro do Amor” não é propriamente um lugar físico, é um lugar emocional. É uma espécie de comunidade imaginada, construída por pessoas que, apesar das suas feridas, encontram umas nas outras alguma forma de conforto.

Hoje em dia era bom que houvesse muitos “Bairros do Amor”.

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