Há uns tempos entrei num restaurante e, antes de me perguntarem o que queria beber, explicaram-me o conceito da casa. Havia memória, partilha, sazonalidade, produtores próximos, gestos antigos reinterpretados e mais duas ou três intenções que entretanto esqueci. Lembro-me de ainda não ter água na mesa. A comida, quando chegou, era boa, o que tornou toda a introdução anterior bastante dispensável.
Como designer, aprendi a desconfiar de projetos que precisam de muitas palavras para fazer sentido. Não porque tudo tenha de ser evidente ou fácil de entender, mas porque explicar um raciocínio é diferente de precisar dele para justificar o resultado. Uma ideia serve para orientar o trabalho, ajudar a escolher, excluir, corrigir e perceber quando uma solução, por muito sedutora que seja, não pertence ali. Se estou a desenhar um espaço, ela vai interferir na circulação, nos materiais, na luz, no mobiliário, na acústica, na relação entre as pessoas e até na quantidade de tempo que espero que alguém queira permanecer naquele lugar. Não é uma legenda acrescentada no fim.

Os projetos de que mais gostei tinham uma qualidade bastante saudável: depois de concluídos, já não precisavam de mim. As pessoas entravam, usavam-nos como queriam, percebiam algumas intenções e ignoravam outras, às vezes faziam exatamente aquilo que eu não tinha previsto. É assim que deve ser. Quando um espaço continua a precisar do designer ao lado a explicar por que razão aquela cadeira está ali, alguma coisa ficou por resolver.
Entretanto, “ter um conceito” passou a ser quase uma condição de existência. Um bar já não quer apenas ser um bom bar, tem uma visão. Um hotel não aluga quartos, propõe uma forma de viver. Uma loja cria comunidade. Um restaurante conta histórias. Uma marca tem valores. Uma padaria recupera memórias de infância. Uma garrafa de vinho vem acompanhada pela biografia da encosta onde nasceu e até um sabonete artesanal pode querer discutir connosco a relação entre tradição e contemporaneidade.
A linguagem ajudou bastante. Há expressões que atravessam arquitetura, gastronomia, moda, arte, hotelaria e festivais sem precisarem de mudar uma vírgula. “Novas formas de habitar”, “memória e identidade”, “experiência imersiva”, “reinterpretação de códigos”. São suficientemente abertas para caber em quase tudo e, por isso mesmo, muitas vezes deixam-nos sem saber o que foi realmente decidido.
No design há ainda outro hábito que conheço demasiado bem. Experimentamos várias soluções, uma funciona melhor e, mais tarde, aparece uma explicação impecável que demonstra como aquela escolha resultou de um percurso lógico desde o primeiro esboço. Às vezes, a escolha vinha mesmo desse raciocínio, outras vezes escolhíamos aquela solução porque simplesmente funcionava melhor. E “funciona melhor” continua a ser uma razão perfeitamente legítima, apesar de não ficar tão elegante numa memória descritiva.

A arte tornou esta necessidade de explicação particularmente visível. Há obras que ganham muito quando conhecemos o processo, o contexto ou aquilo a que estão a responder, e há outras em que entramos numa sala, olhamos para a peça, lemos quatrocentas palavras sobre identidade, capitalismo, trauma, corpo e memória e voltamos a olhar para ela sem saber se percebemos melhor o trabalho ou apenas lemos um texto muito competente.
A música também aprendeu a apresentar-se desta maneira. Um disco chega acompanhado por referências, processos, investigação sonora, circunstâncias pessoais e uma descrição bastante ambiciosa daquilo que pretende questionar. Depois entram duas guitarras, baixo e bateria. Não tenho nada contra duas guitarras, baixo e bateria, passei uma parte considerável da vida a gostar delas, só não vejo necessidade de anunciar uma reformulação da experiência contemporânea antes de tocar três acordes.
A palavra “curadoria” teve uma carreira ainda mais impressionante. Escolher deixou de ser suficiente. Selecionar música passou a ser curadoria musical, escolher mobiliário tornou-se curadoria de objetos e roupa, comida, livros, viagens, cafés e vinhos podem agora ser todos curados. Até o presunto e o queijo. Não me incomoda que haja critério na escolha do presunto e do queijo, pelo contrário, só não sei se todas as escolhas precisam de mudar de profissão.

O problema não está em pensar demasiado sobre aquilo que fazemos. Para quem trabalha em criação, pensar é trabalho. O problema aparece quando a qualidade da ideia começa a ser confundida com a qualidade da explicação que conseguimos construir à volta dela.
O conceito não está na frase, mas sim naquilo que seria diferente se ele não existisse.
Se digo que um espaço deve favorecer encontros, isso terá consequências na maneira como as pessoas se sentam, se cruzam e permanecem. Se uma marca fala de sustentabilidade, a conversa começa quando escolhe materiais, fornecedores, embalagens e transportes. Se um restaurante constrói toda a sua identidade em torno da proximidade, convém que o tomate não tenha feito mais quilómetros do que o cliente. É nessa altura que as palavras começam a dar trabalho, porque uma ideia levada a sério elimina opções, cria dificuldades, aumenta custos e obriga a decisões que nem sempre ficam bonitas numa apresentação.
Quem cria conhece tudo aquilo que não chegou ao resultado final: os testes, os erros, as referências, as versões abandonadas, as discussões, as soluções que pareciam brilhantes às três da manhã e bastante menos interessantes na manhã seguinte. É natural querer contar essa história toda, mas quem recebe o trabalho não tem obrigação de a conhecer para poder relacionar-se com ele.
Pode interpretar outra coisa, pode não perceber aquilo que julgávamos evidente ou pode simplesmente não gostar. Nenhuma dessas possibilidades é particularmente confortável, mas fazem parte de entregar alguma coisa aos outros.
Continuo a trabalhar com conceitos porque preciso deles para organizar ideias, tomar decisões e impedir que um projeto se transforme numa coleção de coisas de que gosto mas que não têm qualquer relação entre si. Só espero que, quando o trabalho estiver concluído, eles já tenham feito o que tinham a fazer.
Se continuamos a precisar de uma longa explicação para convencer alguém de que a ideia está lá, talvez valha mais a pena voltar ao trabalho do que melhorar o texto que o acompanha.

