QUEM VIVE NO POSTAL?

Sistelo, turismo, recuperação e a dúvida sobre o que realmente se preserva quando uma aldeia aprende a viver da própria imagem.

05 de outubro de 2026

QUEM VIVE NO POSTAL?

Voltei a Sistelo mais de quinze anos depois e comecei por gostar do que via. Casas recuperadas, ruas cuidadas, restaurantes abertos, lojas de produtos locais, alojamentos, gente a caminhar e carros estacionados até bastante longe do centro. Para quem conhece tantas aldeias portuguesas onde a sucessão habitual é fechar a escola, fechar o café, fechar as casas e esperar que os telhados façam o resto, dificilmente isto pode ser recebido como uma má notícia.

Só que comecei a procurar a aldeia. Não a arquitetura, essa estava toda à vista. Procurava quem morava ali. Pessoas à porta de casa, velhos a conversar, miúdos da terra, alguém a fazer uma coisa que não tivesse relação nenhuma com a nossa presença. Também procurei as Cachenas que guardava na memória daquela paisagem e não as vi. Durante as horas em que estive em Sistelo, vi muita gente, mas quase toda parecia ter chegado como eu.

Podia ser o dia, a hora ou simplesmente a zona por onde andei, e não quero transformar umas horas de visita numa investigação demográfica. Só depois de regressar fui procurar informação e descobri que a desproporção que senti tem uma dimensão bastante concreta: a freguesia tinha 199 residentes nos Censos de 2021. Entre 2018 e 2019, segundo dados atribuídos pela autarquia ao presidente da Junta de Sistelo, a aldeia recebeu cerca de 100 mil visitantes por ano.

Uma aldeia com menos de duzentos habitantes pode, portanto, receber num ano dezenas de milhares de pessoas que querem vê-la.

Em 2017, Sistelo foi escolhida como uma das 7 Maravilhas de Portugal — Aldeias, vencedora na categoria de Aldeia Rural. A promoção não escondia o objetivo turístico: as aldeias vencedoras passaram a integrar um roteiro e receberam inclusivamente photopoints, estruturas criadas para incentivar os visitantes a registar fotograficamente a sua passagem. Em janeiro do ano seguinte, a Paisagem Cultural de Sistelo foi classificada como Monumento Nacional.

Não deixa de ser uma sequência curiosa. Primeiro reconhecemos o valor de um lugar e depois ensinamos milhares de pessoas a procurar exatamente o enquadramento onde esse valor deve ser fotografado.

O próprio decreto de classificação é particularmente interessante porque explica que a paisagem de Sistelo nasceu da relação entre quem ali vivia e uma economia agropecuária familiar. Os socalcos foram construídos para cultivar, as levadas para conduzir água, os moinhos para trabalhar, as zonas altas para pastoreio e os espigueiros para guardar cereal. Aquilo que hoje contemplamos como paisagem cultural resultou de necessidades muito práticas e de séculos de trabalho.

As Cachenas não estavam lá para compor a fotografia, os socalcos não foram desenhados para um miradouro e ninguém levantou um espigueiro a pensar no património vernacular.

Nós é que chegámos depois e lhes demos esses nomes.

É aqui que a recuperação começa a colocar uma questão menos simples. Podemos restaurar perfeitamente um espigueiro que já não guarda nada, uma eira onde já não se trabalha, uma casa onde ninguém vive permanentemente ou um caminho que perdeu a função que o criou. Não significa que seja errado fazê-lo, mas significa que preservar uma forma não é necessariamente preservar a vida que lhe deu origem.

E não quero cair na versão particularmente cómoda da autenticidade rural, em que uma aldeia só é genuína enquanto estiver pobre, envelhecida, sem oportunidades e suficientemente desconhecida para podermos usufruir dela sem filas. Quem vive em Sistelo tem todo o direito a transformar uma casa num alojamento, abrir um restaurante, vender aquilo que produz e beneficiar do facto de milhares de pessoas terem decidido que o lugar onde sempre viveu é extraordinário.

Seria curioso exigirmos aos habitantes que recusassem oportunidades económicas para nos proporcionarem uma experiência rural mais convincente ao domingo.

O problema não está em alguém ganhar dinheiro com o turismo, mas no momento em que começamos a ter dificuldade em perceber o que existiria sem ele.

Os relatos publicados quando a procura por Sistelo disparou já davam conta do choque entre o quotidiano local e a quantidade de visitantes: pessoas a entrar em campos e socalcos para fotografar, queixas relacionadas com privacidade e propriedade, acessos congestionados e uma aldeia pouco preparada para receber tanta gente de uma só vez. Ao mesmo tempo, o investimento associado à nova procura permitiu reabilitar património, melhorar percursos, criar infraestruturas e sustentar atividade económica. Nos anos seguintes foram anunciadas intervenções em moinhos, espigueiros, áreas de lazer, miradouros e na antiga escola primária.

As duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo, e é justamente isso que impede uma conclusão confortável. O turismo pode contribuir para conservar aquilo que, em excesso, acaba também por transformar.

Depois existe outra pergunta que me ficou a acompanhar desde que saí de lá: porquê Sistelo?

Não porque não mereça. A questão é precisamente a contrária. Quantas aldeias existem no país com casas antigas, maneiras particulares de ocupar a paisagem, conhecimento acumulado, histórias, agricultura, arquitetura e gente envelhecida à espera de que alguém repare nelas? Porque é que umas entram no circuito da conservação e outras continuam a perder população e edifícios sem nunca se tornarem suficientemente desejáveis para mobilizar investimento?

A classificação de Sistelo não caiu do céu. O processo formal começou anos antes da explosão turística e reconheceu precisamente o valor histórico, etnográfico e paisagístico do conjunto. Mas a passagem de lugar pouco conhecido a destino nacional também mostra como visibilidade, promoção, acessibilidade e capacidade de contar uma boa história passaram a ter uma influência enorme sobre aquilo que decidimos preservar.

Uma aldeia esquecida pode ter valor. O problema é que valor e atenção não são a mesma coisa.

E as redes sociais tornaram essa diferença ainda mais evidente. Hoje chegamos a muitos lugares depois de já os termos visto. Conhecemos o miradouro, a varanda, o caminho e a fotografia antes de conhecermos qualquer pessoa que lá viva. Procuramos o lugar real, mas levamos connosco uma imagem à qual ele deve corresponder.

Quando corresponde, fotografamos. Quando começa a corresponder demasiado bem, acusamo-lo de estar turistificado. Não há grande hipótese de ganhar.

Eu próprio fui parte dessa multidão. Fui a Sistelo, estacionei, caminhei, comi, observei e tirei fotografias. Não estou do lado de fora disto a estudar o comportamento dos turistas como uma espécie diferente, porque estava exatamente onde eles estavam e a fazer muitas das mesmas coisas.

O que não consegui perceber foi quem ficava depois de nós sairmos.

Não sei quantas daquelas casas são habitação permanente, quantas são alojamento ou segunda residência, quantos filhos de habitantes conseguiram permanecer, quantos regressaram, quem vive melhor graças ao turismo ou quem apenas passou a viver com ele à porta. Também não sei se as Cachenas que procurei estavam noutro lugar, se a criação diminuiu ou se a memória decidiu inventar uma aldeia mais povoada de animais do que alguma vez foi. Gostava de saber.

E gostava sobretudo de continuar pela estrada até encontrar as aldeias onde os carros deixam de estar estacionados, os restaurantes desaparecem e já não há ninguém a vender produtos locais. Não para concluir que essas são as aldeias verdadeiras, mas para perceber o que separa uma povoação que aprendemos a conservar de outra que deixamos simplesmente envelhecer.

Sistelo foi salva de muita coisa. O património recebeu proteção, houve investimento, a paisagem ganhou reconhecimento e a aldeia adquiriu uma capacidade económica que muitos lugares gostariam de ter. Isso merece ser dito sem ironia.

Mas salvar uma aldeia e salvar as suas pedras não são necessariamente a mesma coisa.

Uma aldeia também é feita de quem conhece os vizinhos, de crianças que crescem juntas, de animais que atravessam a estrada, de pessoas que usam uma eira sem pensar que é património, de uma porta que se abre porque alguém mora atrás dela e não porque há uma reserva para as três da tarde. Essa parte é muito mais difícil de restaurar.

Foi isso que me deixou desconfortável em Sistelo. Não foram os turistas, os alojamentos ou os restaurantes, mas o facto de ter encontrado com enorme facilidade a aldeia que fomos todos visitar e ter tido muito mais dificuldade em encontrar aquela onde alguém vive.

Saí sem saber se estava diante de uma comunidade que encontrou uma maneira de continuar ou de uma imagem de comunidade que aprendemos finalmente a conservar muito bem.

E continuo sem saber qual das duas visitei.

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