Vi isto de lado · Arte & Design

UNKNOWN PLEASURES

JOY DIVISION - PETER SAVILLE

15 de setembro de 2026

UNKNOWN PLEASURES

Em 1979, Bernard Sumner encontrou numa enciclopédia de astronomia uma representação gráfica dos sinais do pulsar CP1919 e levou-a para o material de trabalho do primeiro álbum dos Joy Division. Peter Saville pegou nessa imagem, inverteu-a para branco sobre preto e fez uma coisa que hoje parece óbvia precisamente porque entretanto foi copiada, impressa, parodiada e apropriada milhares de vezes: não colocou na frente da capa nem o nome da banda nem o título do disco.

A imagem não foi desenhada para os Joy Division. Nem sequer nasceu no universo da música. É informação científica, transformada em objeto gráfico pela escolha, pela escala, pela inversão cromática e sobretudo pelo contexto. E talvez seja aí que a capa continua tão interessante: Saville praticamente não acrescentou nada, mas mudou completamente a forma como aquela imagem passou a ser vista.

Hoje é difícil olhar para aquelas linhas e pensar primeiro em astronomia. Pensamos nos Joy Division. Ou em Manchester. Ou em pós-punk. Ou numa T-shirt vestida por alguém que pode nunca ter ouvido Disorder na vida. A imagem saiu da capa, tornou-se símbolo e acabou por adquirir uma existência independente do próprio álbum.

Em 2024, a Rolling Stone colocou Unknown Pleasures no primeiro lugar da sua lista das 100 melhores capas de álbuns de sempre, à frente de Abbey Road, The Dark Side of the Moon, Horses ou London Calling. É uma escolha discutível, como qualquer lista destas deve ser, mas percebe-se perfeitamente como chegou lá.

Não há fotografia da banda, não há logótipo, não há título, não há tentativa de explicar o disco. Há cinquenta anos seria fácil chamar-lhe ausência de informação. Hoje provavelmente chamaríamos identidade.