Vi isto de lado · Cultura
ESCRÍTICA POP
Miguel Esteves Cardoso
20 de setembro de 2026

Como Ser Um Crítico de Rock — Um Guia Prático foi publicado por Miguel Esteves Cardoso em 1981 na revista Música & Som. Hoje faz parte de Escrítica Pop, e uma das graças de o ler mais de quarenta anos depois é perceber que grande parte da maquinaria que satiriza sobreviveu bastante melhor do que os discos, as revistas e os penteados da época.
MEC pega na figura do crítico musical e desmonta-a com a vantagem de quem conhecia o ofício por dentro. O alvo não é propriamente a existência de opinião sobre música, mas a facilidade com que uma opinião bem vestida começa a apresentar-se como conhecimento objetivo. Há um vocabulário certo, posições a tomar, artistas a desprezar e uma série de maneiras bastante eficazes de garantir que o leitor percebe não só se um disco é bom ou mau, mas também que o crítico pertence a uma casta cultural ligeiramente mais esclarecida.
A parte divertida é que o texto devia ter envelhecido mal. O ecossistema que o produziu quase desapareceu: revistas musicais perderam importância, a crítica deixou de depender de meia dúzia de publicações e qualquer pessoa pode ouvir imediatamente o disco sobre o qual alguém está a escrever. Em teoria, isto devia ter reduzido bastante o poder de quem decide o que merece ser ouvido. Na prática, apenas multiplicámos o número de críticos.
Agora temos listas, estrelas, vídeos, threads, rankings, comentários, influencers, especialistas de ocasião e pessoas capazes de transformar três minutos de audição num tratado sobre autenticidade. Já nem é preciso trabalhar numa revista. Basta uma conta e convicção suficiente.
É isso que torna o texto tão bom hoje. Não é apenas uma fotografia da crítica de rock portuguesa do início dos anos 80. É um pequeno manual sobre uma tendência muito mais resistente: a necessidade de transformar gosto em autoridade. Mudaram os meios, mudou a velocidade e aumentou brutalmente o número de pessoas a participar. A pose continua reconhecível.
Talvez por isso Como Ser Um Crítico de Rock seja mais engraçado agora do que seria se tivesse ficado preso ao seu tempo. O crítico que Miguel Esteves Cardoso descrevia já não está necessariamente sentado numa redação, rodeado de discos e cinzeiros. Pode estar no sofá, de telefone na mão, a explicar a alguém que nunca conheceu porque é que aquilo de que gosta não é, tecnicamente, bom.
E isso, convenhamos, foi um progresso extraordinário.
