QUANDO UMA BOA MÚSICA SE TORNA INSUPORTÁVEL
Como uma música pode continuar ótima e tornar-se impossível de ouvir.
22 de setembro de 2026

Há músicas que não fizeram nada de errado e, mesmo assim, deixámos de as conseguir ouvir. Às vezes foi a rádio que as matou, outras vezes foi um bar com uma playlist preguiçosa, uma festa, um casamento, uma relação, um anúncio ou simplesmente o facto de alguém ter decidido que aquela música tinha de acompanhar todos os momentos vagamente emocionais da nossa vida. A canção continua exatamente igual. Nós é que já não chegamos a ela sozinhos.
Stairway to Heaven é provavelmente um dos exemplos mais óbvios. Não porque tenha deixado de ser uma grande canção, mas porque se tornou uma espécie de monumento obrigatório. Há temas que envelhecem, há temas que ficam e há temas que acabam transformados em património. Quando isso acontece, ouvir deixa de ser apenas ouvir. Passamos a carregar décadas de reverência, rankings, solos de guitarra, lojas de instrumentos, adolescentes a aprender os primeiros acordes e gente muito séria a explicar porque aquilo mudou a história da música. A determinada altura já não estamos propriamente a ouvir Led Zeppelin. Estamos a visitar um monumento nacional.
Com Common People percebi que o problema nem sequer era a música. A versão dos Pulp foi tocada, celebrada e transformada num hino tantas vezes que comecei a ouvi-la já com tudo o que se acumulou à volta. Britpop, nostalgia dos anos 90, festivais, refrões gritados por milhares de pessoas, listas das melhores canções da década e toda aquela cerimónia que se vai formando em torno de uma música até quase já não haver espaço para a própria música. Depois aparece William Shatner, com Ben Folds, e estraga a cerimónia toda. De repente consigo ouvi-la outra vez. A canção continua lá, mas já não vem embrulhada na mesma carga. Está deformada o suficiente para voltar a parecer estranha, mordaz e até desconfortável. O que me cansou, afinal, não foi Common People. Foi a versão oficial de Common People ter passado demasiado tempo a ser tratada como património.
Alive, dos Pearl Jam, entrou noutra categoria. Há músicas que ficam ligadas para sempre a uma determinada ideia de adolescência, liberdade ou intensidade e depois passam trinta anos a ser usadas como prova de que ainda somos a mesma pessoa. Não somos. A música também não é. Mas a memória insiste em pôr-nos outra vez naquela sala, naquele carro, naquela idade, como se quatro minutos fossem suficientes para reabrir uma versão antiga de nós próprios. A certa altura já não sei se estou cansado da música ou da pessoa que fui quando a ouvi pela primeira vez. E isso é uma situação um bocado injusta para Eddie Vedder, que provavelmente não tem culpa nenhuma.
E depois há With or Without You. Poucas músicas foram tão eficazmente transformadas em banda sonora emocional para tudo. Casamentos, separações, vídeos de homenagem, anúncios, séries, momentos de lágrima cuidadosamente programada. A música dos U2 já vinha preparada para a escala, mas o mundo tratou de a ampliar até quase não restar espaço para uma escuta íntima. Quando uma canção passa a servir para explicar qualquer emoção, começa a correr o risco de não explicar nenhuma. Sabemos exatamente onde entra a guitarra, onde sobe a voz e onde é suposto acontecer qualquer coisa dentro de nós. E quando sabemos tudo isso com demasiada antecedência, a emoção começa a parecer uma marcação no chão.
O mais estranho é que nenhuma destas músicas ficou pior. As gravações não mudaram, as notas estão todas no mesmo sítio, as vozes continuam lá e, em muitos casos, continuamos a reconhecer perfeitamente porque é que foram importantes. O desgaste acontece noutro lugar. A música passa a carregar demasiadas coisas que não lhe pertenciam à partida e nós deixamos de conseguir separar uma coisa da outra.
Também há qualquer coisa de reconfortante em perceber que esse desgaste não é necessariamente definitivo. Às vezes basta alguém pegar na canção, desmontá-la, mudar-lhe o tom, o corpo ou a intenção e devolvê-la de uma maneira que nos obrigue a ouvi-la outra vez. Foi isso que me aconteceu com Common People. Não precisei de deixar a música descansar durante vinte anos. Precisei que William Shatner entrasse pela porta errada.
Não sei se deixamos verdadeiramente de gostar de uma canção. Em alguns casos parece mais uma alergia adquirida. Sabemos que aquilo era bom, sabemos até explicar porquê, mas o corpo já não quer colaborar. E de vez em quando basta uma versão suficientemente torta para nos lembrar que, por baixo de toda a bagagem, a música ainda estava lá.
E isso é bastante injusto para a música.
