Vi isto de lado · Cultura

Há mais cultura em Portugal. Mas a custo de quê e de quem?

30 de setembro de 2026

Há mais cultura em Portugal. Mas a custo de quê e de quem?

Em agosto, Cem Soldos deixa durante alguns dias de ser apenas uma aldeia. As ruas tornam-se recinto, aparecem palcos nos largos, a igreja, as praças e outros espaços da terra entram na programação e são os próprios habitantes que recebem parte de quem chega. O Bons Sons faz isto há vinte anos e já há uma geração de crianças da aldeia que nunca conheceu Cem Soldos sem o festival. Este ano, uma exposição construída com os mais novos perguntava-lhes como imaginavam aquele lugar em 2046. O festival já faz parte da memória de quem ainda nem tem memória suficiente para comparar o antes e o depois.

É difícil encontrar argumento melhor a favor de um festival. Também é difícil encontrar melhor razão para desconfiarmos da facilidade com que começámos a chamar festival a quase tudo.

O próprio Bons Sons decidiu passar a bienal. Não por falta de público — a edição anterior esgotou — mas para dar mais tempo aos processos, às equipas voluntárias e aos outros projetos da associação que o organiza. A decisão é interessante porque vem de quem aparentemente tinha todas as razões para fazer mais: um festival reconhecido, público, impacto local e uma comunidade profundamente envolvida. Escolheram fazer menos para poder continuar a fazer. Convém guardar isto.

Nos últimos anos, Portugal aprendeu extraordinariamente bem a montar palcos. Em cidades, vilas, aldeias, praias, serras, centros históricos, antigas fábricas, margens de rios e terrenos onde, durante onze meses do ano, a programação musical mais ambiciosa pode ser a rádio do café. O festival tornou-se uma unidade de medida do dinamismo de um território. Uma terra com festival acontece. Uma terra sem festival corre o risco de parecer que ainda não recebeu o memorando.

Os académicos chamam-lhe festivalização da cultura, expressão suficientemente feia para descrever uma coisa que costuma ficar muito bonita no Instagram. A ideia não é nova: municípios e outras estruturas usam acontecimentos culturais para dar visibilidade aos territórios, atrair visitantes, produzir identidade, mexer na economia local e, em alguns casos, levar oferta cultural onde ela é escassa. Há localidades portuguesas cuja projeção já não se consegue separar dos eventos que acolhem. Nada disto é necessariamente mau. O problema começa quando confundimos ter um festival com ter vida cultural.

Um festival pode trazer pessoas a uma aldeia que raramente as recebe. Pode encher restaurantes, ocupar alojamentos, criar trabalho, juntar gerações, devolver orgulho a uma comunidade e fazer alguém conduzir trezentos quilómetros para descobrir um lugar onde nunca teria ido de outra forma. No caso de Cem Soldos, há investigação que encontrou efeitos positivos na restauração e no alojamento local e, mais importante, projetos comunitários que continuam ao longo do ano. Não estamos perante quatro dias pousados sobre uma aldeia e retirados depois com as grades. Mas essa não é automaticamente a história de todos os festivais.

É possível chegar a uma vila em julho e encontrar um palco excelente, produção competente, artistas que habitualmente só aparecem nas grandes cidades, comunicação profissional e milhares de pessoas. Depois regressar em fevereiro e descobrir que não existe uma sala onde uma banda local consiga tocar para cinquenta. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

Uma autarquia pode organizar um excelente festival e ter uma política cultural magra. Pode investir numa programação de três dias e não conseguir sustentar uma programação de três pessoas durante o resto do ano. Pode financiar aquilo que traz visitantes e continuar sem resolver aquilo que permite a alguém ficar. É bastante mais simples fotografar uma praça cheia do que uma sala de ensaio aberta numa terça-feira à noite. É aqui que a pergunta deixa de ser quantos festivais temos.

O que fica quando acaba o festival?

Fica uma associação mais capaz? Fica equipamento? Ficam técnicos que aprenderam um ofício? Fica público para um concerto em novembro? Ficam músicos? Fica uma sala? Fica uma comunidade que decidiu fazer outras coisas em conjunto? Ou fica apenas a memória de um grande fim de semana e uma reunião marcada para começar a preparar o próximo?

Para perceber a diferença, pode ser útil fazer o percurso ao contrário e regressar ao Porto.

Na Rua do Heroísmo existe um centro comercial onde aconteceu uma coisa que nenhum plano de marketing territorial teria conseguido desenhar com a mesma eficácia. O comércio foi desaparecendo e os músicos foram chegando. As lojas transformaram-se em salas de ensaio, estúdios e espaços de trabalho. Durante mais de vinte anos, centenas de pessoas ocuparam um edifício pensado para vender coisas e transformaram-no num lugar para fazer música. O STOP tornou-se importante culturalmente antes de alguém decidir que era importante culturalmente.

Em julho de 2023, a Câmara do Porto selou 105 das 126 lojas por problemas de licenciamento e segurança. Centenas de músicos e outros utilizadores ficaram impedidos de entrar. O centro reabriu semanas depois com medidas provisórias; em 2025 avançou a sua classificação como Monumento de Interesse Municipal e, neste verão, bandas que trabalham no STOP tocaram em nove coretos históricos da cidade numa programação feita com a associação de músicos e o município. É um percurso extraordinário.

Primeiro, um centro comercial deixa de funcionar como centro comercial. Depois torna-se útil precisamente porque deixou de funcionar como estava previsto. Os músicos apropriam-se dele, criam um ecossistema, o ecossistema ganha valor cultural, o edifício entra em conflito com as condições necessárias para continuar a recebê-lo e, finalmente, aquilo que nasceu por ocupação e necessidade começa a ser reconhecido institucionalmente como património.

Não foi preciso inventar um festival para criar cultura ali. Foi preciso haver espaço barato.

Esta parte é menos sedutora, mas provavelmente mais importante do que parece. Uma boa parte da cultura não nasce quando alguém aprova uma programação. Nasce porque existe um sítio onde se pode experimentar sem pedir demasiadas autorizações, porque a renda ainda é suportável, porque há uma garagem, uma associação, uma loja vazia, um antigo armazém, uma coletividade com uma sala que ninguém estava a usar às quartas-feiras.

Depois o lugar começa a funcionar e é normalmente aí que fica caro.

O caso do STOP não representa Portugal inteiro. Nem Cem Soldos. É justamente por isso que os dois interessam. Num sítio, a cultura ocupa durante alguns dias praticamente uma aldeia e procura deixar qualquer coisa depois de partir. No outro, ocupou durante anos um edifício que a economia convencional tinha deixado para trás e acabou por tornar-se parte da identidade da cidade.

Entre estas duas situações está grande parte do país.

Há territórios onde o problema é encontrar espaço. Outros onde há espaço de sobra e faltam pessoas. Lugares onde há público e não há salas. Lugares onde há salas e não há transportes depois das dez. Associações que conseguem montar um festival com dezenas de artistas mas passam o resto do ano a discutir quem fica com a chave. Pessoas que fazem programação cultural ao mesmo tempo que têm outro emprego, não porque cultivem uma relação especialmente romântica com a exaustão, mas porque alguém tem de pagar a renda enquanto se espera pelo resultado de uma candidatura.

E depois há o verão. Durante três meses, Portugal parece resolver tudo isto. O interior enche-se de cartazes, a costa de palcos, as aldeias de visitantes. Há música em sítios onde em janeiro é difícil encontrar um café aberto à noite. A cultura circula, mistura públicos, leva dinheiro e atenção a lugares esquecidos e cria momentos que permanecem muitos anos depois de desmontadas as estruturas. Seria absurdo desprezar isso.

Seria igualmente ingénuo não perguntar porque é que conseguimos mobilizar tanta energia, financiamento, logística e vontade para criar acontecimentos temporários e temos tanta dificuldade em garantir condições permanentes a quem passa o resto do ano a fazer cultura.

A questão não é escolher entre o festival e a pequena sala, entre a festa de verão e o trabalho continuado, entre turistas e habitantes. Um país culturalmente saudável devia conseguir suportar ambos.

Por isso, quando alguém disser que determinado festival trouxe milhares de pessoas a uma terra, a pergunta não precisa de ser hostil. Pode ser muito mais simples.

Voltemos em fevereiro. Vejamos quem ainda está lá.